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Opressão, classes, minorias… e um desabafo coxinha

Por Carlos Mendes "Martini"   /     jan 15, 2015  /     Além disso...  /  

Fui parar em uma discussão no Facebook por ver, em minha tela, os avisos de comentários de dois colegas subindo nervosamente à direita da timeline. Era um post sobre racismo cheio de comentários de pessoas “altamente iluminadas” e donas de uma “verdade única, absoluta, inegável e irrevogável”, que afirmavam, “humildemente”, estarem ensinando coisas que os outros deveriam parar para ler e “aprender” com elas.

Claro, é uma premissa básica do Universo que os homens devem se calar para ouvir os deuses — todo mundo sabe disso, afinal.

A discussão toda era em torno desta imagem:

post

Deveria ser dispensável explicar a imagem mas, a fim de evitar mais confusão, eu explico: trata-se de uma cena extraída de um esquete de TV (acho que posso chamar assim) que queria demonstrar a importância do uso da vírgula e as confusões que o mau uso (ou o não uso) dela podem causar. É CLARO que o Danilo Gentili usou esta frase justamente para causar polêmica. Não fosse assim, não seria ele. Mas como eu disse, isso não vem ao caso.

Daí saiu este texto. Ele é grande, já aviso. Mas lê quem quer. Vivre la liberté.

— x — x — x —

Eu sou gay. E tenho sangue negro, com direito a nariz grande, pele morena e cabelo “quase ruim”. Na minha infância ficava magoado com as brincadeiras dos amiguinhos brancos heteros baseadas nas gracinhas do Renato Aragão (entre outras coisas, puxavam meu cabelo e diziam que eu tinha “cabelo frito”, uma coisa meio Dido Mocó). Mais tarde, quando eu apresentei alguns trejeitos no colégio, os meninos davam risada da minha cara.

“Lá vai a bichinha”.

Lembro até hoje que um único rapaz que me defendia. Ele era alto, maior do que os outros, fortinho, e os outros tinham medo dele. Eu não. Lembro até hoje que o nome dele era Geovane ou Giovanni, algo assim. Lembro de ouvir o nome, não de como se escrevia. Nunca olhei a lista de chamada para ter certeza. Eu lembro claramente das situações, o jeito atencioso e até carinhoso como ele me perguntava se eu estava bem. Lembro até da voz rouca dele. Não tenho certeza se ele tinha segundas intenções, mas ele sempre se mostrou mais preocupado com a minha segurança do que com qualquer outra coisa. Eu me sentia seguro e confortável ao lado dele. Foi minha primeira relação platônica.

Minha mãe é católica fervorosa, rigidamente educada pelos preceitos do começo do século passado. Herdei dela certa dificuldade de lidar com sexo. Fui saber o que era “ato sexual” com 16 anos. Não riam, é verdade. Deixei uma professora de biologia em maus lençóis por causa disso. A mulher não sabia se tentava me responder ou se cavava um buraco para se enterrar. Coitada.

Comecei o curso de Ciências Econômicas na UFSC em 1989. Na minha turma eu era o mais pobrezinho (a rigor, nunca fui mesmo “pobre”, mas como sempre estive entre pessoas com uma vida melhor do que a minha, às vezes eu era tratado como “o pobre” do grupo). Às vezes não tinha como comprar certos livros (na época caros) e participar de algumas atividades. A grana não dava. Meu carro era uma caravan branca, já meio surrada. Às vezes eu sentia uns olhares de piedade vindo em minha direção, quando entrava no carro para ir embora.

Trabalhei como autônomo durante anos. Eu gostava, me dava certa liberdade e rendimentos interessantes. Um dia resolvi ter um emprego formal. Não levando em conta minha experiência, eu era barrado por causa da idade. Às vezes é complicado arrumar emprego depois dos 35 por aqui. Quero dizer, acho que era pela minha idade, pois não poderia ser pela competência. Ou então poderia ser… não, acho que não.

Sim, eu faço parte do que muitos chamam de “grupo oprimido”. Aliás, de vez em quando acabo, involuntariamente, fazendo parte de vários “grupos oprimidos”.

Mas NUNCA aceitei ser vítima. Ponto.

Durante 3 anos eu fui morar em Criciúma, uma cidade ao sul daqui. Eu morei com amigos negros que tinha lá — uma família inteira de negros. Eu ouvia as conversas à mesa, às vezes:

— Você viu que a filha da Fulana está namorando um branquinho?

— Sério??? Nossa, com tanto negrinho bonito e trabalhador por aí, ela escolhe um branquinho!

— É mesmo. Ai, eu fiquei com uma dó…

Posteriormente a filha de uma delas também se apaixonou “por um branquinho”. Muito embora todos o tratassem bem, era nítido que não gostavam dele por causa da cor. No final acabaram se acostumando, acho que aquilo acabou em um “felizes para sempre”. Ou não. Mas espero que sim.

Semana passada eu vi um post de uma jornalista conhecida, uma notícia sobre como algus chineses maltratavam cães e os usavam como alimento e para tirar o couro deles, a fim de produzir os produtos de couro que depois são exportados para cá. Pois é, quando comprar algo de couro da China, saiba que pode não ser couro de vaca. Mas voltemos ao post. Olhei os comentários dos internautas:

“Malditos chineses!”

“A bomba atômica deveria ter explodido lá!”

“Tomara que esses malditos chineses morram de câncer com muito sofrimento!”

“Tinha que ser coisa desses chineses desgraçados!”

E sim, também havia negros lá ajudando a xingar os chineses.

Sim, existe racismo entre todas as ditas “raças” (sim, “raça” entre aspas, porque raça na verdade temos uma só, que é a humana). E existe “racismo inverso” — de negros contra brancos — se quiserem chamar assim (eu desconhecia a coisa por esse nome).

Não, não venham com esse discurso falacioso de que foram os brancos que inventaram o tal do racismo reverso. Não insultem minha inteligência. Eu vejo racismo, de todas as formas, todos os dias. Vejo brancos que odeiam negros, negros que odeiam brancos, brancos e negros que odeiam amarelos. Aliás, ninguém fala do preconceito contra os amarelos (orientais). Sim, ele existe.

Não, não venham com esse discurso falacioso de que não existe heterofobia, cristofobia, brancofobia. Existem sim. Basta olhar o que as pessoas dizem e como elas agem, até mesmo no Facebook. Já vi muitos discursos altamente virulentos contra o cristianismo, muito piores até do que muitos discursos de cristãos sobre o “pecado” de ser homossexual. O preconceito existe em todas as formas, ele não é uma exclusividade dos terríveis heteros brancos cristãos racistas homofóbicos.

Não, não venham com esse discurso falacioso de que “a sociedade” é racista, machista e homofóbica. Eu sou parte da sociedade. Eu não sou “um oprimido”, eu sou o Carlos. O Fulano não é um membro da raça branca opressora, ele é o Fulano. Eu não lido com essas abstrações (“a sociedade”) porque elas são parte de um discurso alienante, a socialização do comportamento e da culpa, a fim de que ninguém tenha culpa de nada. Se o Beltrano me trata mal porque tem preconceito, não é a “sociedade”, é ele, o Beltrano. E o bandido que rouba não o faz por culpa “da sociedade”, ele faz porque quer. Sim, as pessoas pensam, raciocinam, pesam prós e contras, decidem e são responsáveis pelos seus atos.

Sim, existe uma “ditadura moralista” em curso. É, eu faço parte do que vocês chamariam de “grupo oprimido”. Não é fácil lidar com o preconceito dos outros, mas eu não jogo a culpa de nada em entes abstratos, porque eu sei que eles vão ficar lá flutuando no vazio, eternamente, sempre com a culpa de tudo. Eu jamais serei “vingado”, jamais terei justiça, e por toda a eternidade sempre haverá um grupo responsável pelos meus problemas e pelas mazelas do mundo. Daqui a 500 anos ainda haverá gente reclamando das injustiças e abusos históricos dos brancos contra os negros. Isso, aliás, se ainda existirem brancos até lá (alô, miscigenação!). E se não existirem, sempre haverá uma abstração qualquer ou um coletivo para levar a culpa de tudo: os burgueses, a igreja, o imperialismo…

Não, obrigado. Se a culpa é do João, então é do João. A “sociedade” é uma abstração. E abstrações não tem culpa de nada.

Não, nenhuma abstração me deve coisa alguma por “abusos históricos”. Isso é ridículo. Minha bisavó, avó da minha mãe, era índia. Ela foi COMPRADA pelo meu bisavô, um desses brancos heterossexuais opressores. Quer saber? Eles foram muito felizes. E não, ninguém me deve nada pelas terras que meus ancestrais índios tiveram roubadas.

NUNCA aceitei existir como parte de um coletivo. Eu sou um indivíduo. Ponto.

Pois é, a “luta de classes” evoluiu. Agora não são mais os “proletários” lutando contra os “burgueses”, até porque, a rigor, praticamente inexistem proletários hoje em dia (se é que vocês sabem o que o termo significa). Agora é um pega-pra-capar generalizado: brancos x negros, negros x brancos, gays x héteros, gays x cristãos, cristãos x gays, cristãos x espíritas (e aliás, todo mundo confunde o espiritismo com as religiões de matriz africana, mas até aí entre eles também rola uma briga). São grupos de pessoas lutando contra abstrações, ad infinitum. E se te faltar um grupo opressor para chamar de seu, sempre pode-se apelar para os “imperialistas” – como se ainda existisse o imperialismo.

Aliás, acho que nem ensinam direito nas escolas de hoje o que era o imperialismo e quais foram os seus desdobramentos históricos. Se ensinassem, não haveria tanta gente acreditando que a fome e a miséria na África foram culpa do capitalismo e do imperialismo. Mas isso é uma outra história.

Maldito MEC. Maldito Paulo Freire. Maldita educaSSaum brazileira. Maldito Gramsci. É, alguns dos “deuses” que vomitavam suas verdades absolutas no post provavelmente não reconheceriam este último nome. Mas Gramsci estava lá, em tudo que eles escreviam, como Satã projetando sua sombra macabra sobre a Terra.

Não, não… eu NUNCA aceitei ser vítima. Eu preferi ser, eu mesmo, dono do meu nariz. Eu preferi ser responsável pelos meus atos e pelo meu destino. E, principalmente, eu preferi estudar.

Meus 2 cents, por favor.

— x — x — x —

635573340325153792Adendo: depois que postei isso lá, um dos deuses revoltou-se. Como Zeus no topo do Olimpo, lançou raios para cima a fim de demonstrar sua ira (eu daria outro nome para isso), preparou sua mais linda pose de intelectual esquerdista (daqueles que pensam apenas de acordo com a cartilha pronta, usam frases feitas e só admitem pensamentos com base no coletivo) e, cheio de impáfia e daquela arrogância típica de toda uma geração de filósofos uspianos alienados (ops, desculpem o pleonasmo), questionou se eu estudei mesmo Economia, disse que era triste que eu não tivesse “perspectiva de classe” e afirmou que seria fácil refutar meus argumentos. Assim, como se eu estivesse argumentando em uma discussão e não simplesmente narrando minha experiência pessoal e o que eu tirei dela.

Finalizei:

Neguinho (isso é força de expressão e não racismo tá?) faz toda uma pose intelectualóide, cita um ou dois pensadores esquerdistas pseudo-alguma-coisa para se mostrar cheio de autoridade, mas não é sequer capaz de diferenciar um relato de experiência pessoal de uma argumentação baseada em elementos empíricos. Ou: eu falo o que eu vivi (fatos), falo o que eu vi e vejo (fatos) e ele aparece todo garboso, cheio de si, dizendo que é fácil contestar meus argumentos. Ainda por cima, faz isso depois de fazer comentários e mais comentários baseados em chavões, frases feitas e conceitos “revolucionários” socialistas decorados, colocando esse monte de bobagens como se fosse algum tipo de ciência.

Mas eu já conheço os deuses do Materialismo Histórico, suas bíblias e a cartilha do seu profeta Antonio Gramsci. Não servem para mim.

O que aconteceu comigo, aconteceu. O que eu vi eu vi. O que eu vejo, eu vejo. É possível questionar se não há outras leituras possíveis a serem feitas dos fatos que me ocorreram, mas não se pode questionar os fatos, a realidade. Não cabe o jeito orwelliano de ser da nossa esquerda — que é capaz de alterar a história e mudar até o sentido das palavras, fazendo por exemplo “racismo” se confundir com “classismo” a fim de que, seja qual for o rumo de uma discussão sobre racismo, a razão seja sempre deles. Não se discute com pseudo-intectuais desse naipe. E daí a figura ainda decide questionar se eu estudei mesmo Economia.

Sim, eu estudei — afinal, eu não sou a Dilma, que desconhece até mesmo os mais básicos conceitos do assunto. Aliás, é engraçado como qualquer tolo, no Brasil, se acha capaz de dar aula de Economia. Conheço outro idiota que também questiona o que eu sei sobre Economia mas ainda acredita em mais-valia, conceito derrubado por Böhm-Bawerk antes da obra de Marx ser concluída. Marx, aliás, que era um plagiador inveterado (nem a própria mais-valia foi criação dele, a rigor, e sim fruto de um deslize, um “peido intelectual” de Adam Smith).

Essa é a gente que defende “as minorias” fazendo com que as vozes delas sejam mais fortes do que a da maioria (ou seja, criando privilégios forçados pela gritaria onde deveria haver, sim, direitos conquistados por reivindicações). Gente para quem um indivíduo não é minoria, já que o ser humano só existe, na mentalidade deles, enquanto coletivo.

Surpresa pessoal: não somos abelhas, somos humanos.

Não, EU NÃO PRECISO E NÃO QUERO ter “perspectiva de classe”. Deixo isso para quem não consegue pensar com a própria cabeça, só com o coletivo. Essa vida bovina, esse espírito de rebanho, não servem para mim. Não há nada mais triste do que gente que não se considera enquanto indivíduo e depende de uma “classe” para existir e pensar, como um bovino seguindo o rebanho, ruminando o capim que lhe é dado sem questionar e ainda sentindo-se agradecido por causa disso.

Ah, ainda em tempo de fechar o assunto antes de ser bloqueado (o que é previsível): de fato, praticamente não existe mais “proletariado”.

O conceito de prole surgiu no Império Romano e referia-se aos mais pobres, cuja única utilidade para a República era a geração da prole — filhos — que iriam, no futuro, servir Roma. Séculos depois o conceito foi reaproveitado para designar a massa de cidadãos sem posses que, não dispondo de dinheiro, terras ou meios de produção para gerar o próprio sustento, precisavam ter muitos filhos, cuja força de trabalho era vendida para dar sustento à família.

Hoje, no máximo se poderia chamar de proletários aqueles que tem filhos e os colocam para mendigar nos sinais de trânsito.

O antigo proletariado deixou de existir, foi substituído pela classe operária depois, na Revolução Industrial. Com a Revolução veio a produção em massa, a queda de preços, a melhoria geral das condições de vida da população. Aliás, é preciso ser muito idiota para não reconhecer que o mundo inteiro vive melhor hoje, sob a égide do capitalismo, do que durante o regime feudal — nem Marx, sendo o imbecil que era, seria capaz de negar isso. E então chegaram os tempos que Marx não previu: a população mais pobre percebeu que era possível melhorar de vida pelo trabalho e perdeu o interesse pela tal “luta de classes”. O que os pobres querem, hoje, é ter dinheiro para aproveitar as benesses capitalistas. E foi daí que foi preciso criar essa segmentação da sociedade em classes, grupos, coletivos, lutando entre si.

É a luta de classes em versão moderna e hardcore. É dividir para conquistar.

Mas isso é uma outra história.

Au revoir, amiguinhos.

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Carlos Mendes "Martini"

Carlos Mendes "Martini" é Gestor da Tecnologia da Informação pelo Centro Universitário Newton Paiva, estudante de Filosofia (aluno do Professor Olavo de Carvalho), ex-estudante de Economia na UFSC (pensando em retornar ao curso o mais breve possível) e Gerente Financeiro em uma empresa de varejo de madeiras e produtos relacionados.
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Carlos Mendes "Martini" é Gestor da Tecnologia da Informação pelo Centro Universitário Newton Paiva, estudante de Filosofia (aluno do Professor Olavo de Carvalho), ex-estudante de Economia na UFSC (pensando em retornar ao curso o mais breve possível) e Gerente Financeiro em uma empresa de varejo de madeiras e produtos relacionados.

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